De Bretton Woods a Wuhan e além
- Hugo C. Melo Filho
- 14 de mai. de 2020
- 18 min de leitura

Hugo Cavalcanti Melo Filho [1]
Em editorial de 3 de abril de 2020, intitulado Coronavírus: Vírus revela a fragilidade do contrato social, o Financial Times, advertindo para a necessidade de reformas radicais para forjar uma sociedade que funcione para todos, vaticinou: “Em 1944, a conferência de Bretton Woods forjou a arquitetura financeira do pós-guerra. Esse mesmo tipo de previsão é necessário hoje. Além da guerra da saúde pública, verdadeiros líderes se mobilizarão agora para conquistar a paz" [2].
Como anotam Hardt e Negri [3], a administração capitalista do desenvolvimento econômico mundial pós-guerra foi definida, quanto à forma e ao conteúdo, na conferência de Bretton Woods, em New Hampshire, em 1944. O sistema definido baseava-se em três elementos centrais: a hegemonia econômica dos Estados Unidos sobre todos os países não socialistas, garantida pela escolha de um modelo de desenvolvimento liberal, a partir de uma relativa liberdade de comércio e pela manutenção do ouro como garantia do poder do dólar; depois, a exigência de acordo de estabilização monetária entre os Estados Unidos e os outros países capitalistas dominantes, especialmente os da Europa, o que permitiu que a reforma nos países capitalistas europeus fosse financiada pelo sistema monetário do dólar; em terceiro lugar, o estabelecimento de uma relação “quase imperialista” dos Estados Unidos com todos os países subordinados não socialistas, que gerou “superlucros” para os primeiros, os quais puderam garantir a estabilização e a reforma da Europa e do Japão, no período que se seguiu.
Assim, a partir de 1944 se inicia um ciclo econômico de larga escala, período de continuidade histórica do desenvolvimento capitalista monopolista, agora capitalismo transnacional. A primeira fase desse ciclo é marcada por um crescimento inusitado da sociedade capitalista e por grandes acontecimentos: internacionalização do capital, terceira revolução industrial, nova tecnologia da indústria militar, incipiente indústria espacial, informática e reconstrução da Europa e do Japão, que criaram as condições para o capitalismo multipolar (Estados Unidos, Comunidade Econômica Europeia, Japão), mas também para a conformação do bloco socialista. A contradição entre os sistemas dá início à Guerra Fria, período marcado por relativo equilíbrio econômico, político e militar entre os blocos de poder: o capitalismo liberal e o sistema socialista, capitaneados, respectivamente, pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética.
O sistema delineado em Bretton Woods entrou em crise, a partir do final da década de 1960, com a continuidade das lutas operárias e o consequente aumento dos custos da estabilização e do reformismo (nos EUA, na Europa e no Japão), bem como em face das lutas anti-imperialistas e anticapitalistas nos países periféricos (que impediram a manutenção do superlucro imperialista) [4]. Com isso, a balança comercial dos Estados Unidos com a Europa e o Japão passou a favorecer a estes últimos.
Nessa conjuntura, o presidente Richard Nixon, em agosto de 1971, resolveu desvincular o dólar do padrão ouro e agregou uma sobretaxa de 10% a todas as importações da Europa para os Estados Unidos. O governo norte-americano descumpriu seu compromisso relativo à conversibilidade do dólar ao ouro “sem a menor atenção para com o interesse daqueles diretamente atingidos por tal decisão e, de fato, sem a mínima preocupação com as severas implicações de sua ação unilateral para o futuro do sistema monetário internacional” [5].
A crise tornou-se estrutural na década de 1970. Após as décadas de ascensão contínua do sistema do pós-guerra, com o final da “Guerra Fria” a questão do desemprego foi alterada substancialmente, porque deixou de se limitar a um “exército de reserva”, a ser ativado nos momentos de expansão produtiva do capital, para assumir um caráter crônico, o chamado “desemprego estrutural”. [6]
Os sinais de desmantelamento do Bloco Soviético favoreceram as eleições de Margareth Tacher, em 1979, e Ronald Reagan, em 1980, criando as condições para a implementação de uma nova fase do modelo de produção capitalista, caracterizada pela globalização e pelo neoliberalismo, estruturado a partir dos postulados da denominada Escola de Chicago, que pôs fim às políticas keynesianas.
Durante as décadas de 1980 e 1990, a crescente crise da dominação econômica norte-americana e suas consequências, como “a erupção de grandes contradições no interior da Comunidade Econômica Europeia, ameaçando-a de colapso”, sublinharam a ação de forças que definem uma crise estrutural do capital [7]. Economistas eminentes alertaram “que esse processo conduziria a uma economia de baixo crescimento e baixos salários, sugerindo medidas bastante simples para evitá-los. Mas os grandes arquitetos do Consenso de Washington optaram pelos efeitos previsíveis, que incluem lucros elevadíssimos” [8].
O Consenso de Washington é um conjunto de princípios orientados para o mercado, traçados pelo governo dos Estados Unidos e pelas instituições financeiras internacionais que eles controlam, em 1989, e por eles mesmos implementados de formas diversas, geralmente como rígidos programas de ajuste estrutural. “Resumidamente, as suas regras básicas são: liberalização do mercado e do sistema financeiro, fixação dos preços pelo mercado (‘ajuste de preços’), fim da inflação (‘estabilidade macroeconômica’) e privatização”. Tudo isso, claro, com mínima intervenção estatal” [9].
Para que se tenha ideia do resultado das políticas aplicadas, em 1971, antes de Nixon alterar todo o equilíbrio do sistema econômico global pós-guerra, “90 por cento das transações financeiras internacionais tinham alguma relação com a economia real (....). Em 1995, cerca de 95 por cento de um valor total imensamente maior era de natureza especulativa (...)” [10].
No espaço de vinte e cinco anos, o neoliberalismo patrocinou um cenário de baixo crescimento, se comparado a outros períodos e engendrou uma desigualdade semelhante à de 100 anos atrás [11]. Relatório da ONG internacional Oxfam, divulgado em 18.1.16, revelou que o patrimônio do 1% mais rico do mundo ultrapassou, em 2015, a riqueza de 99% da população mundial, pela primeira vez [12].
A crise financeira mundial atingiu o seu ponto culminante em setembro de 2008 com colapso do banco estadunidense Lehman Brothers. Eliminou 13% da produção e 20% do comércio mundial e produziu uma fase de depressão que, mesmo antes da pandemia de Covid-19, não afastava a possibilidade de uma estagnação de longo prazo [13].
A ordem capitalista internacional foi desestabilizada pelo colapso financeiro, que atingiu débitos soberanos de países da União Europeia. Além disso, abalou ainda mais a confiança nos Estados Unidos, já em declínio, especialmente desde a guerra contra o Iraque (2002).
A fim de reduzir os impactos da crise sobre as respectivas economias, os Estados ocidentais promoveram ajuda financeira aos setores mais críticos, injetando bilhões de dólares. A previsão era de que os pacotes de ajuda evitariam demissões de trabalhadores e mitigariam as drásticas consequências das turbulências no setor financeiro. Ocorre que essas ajudas determinaram a redução da arrecadação dos governos e a ampliação do déficit orçamentário.
Por meio de programas de austeridade, as dívidas dos bancos foram transferidas aos aposentados e pensionistas, com a destruição dos sistemas previdenciários e elevação drástica da idade de aposentadoria, bem como aos trabalhadores, com a eliminação de direitos e a redução de salários. Enfim, a austeridade se traduziu em ataque aos direitos sociais da atual e das futuras gerações.
O sistema bancário “fantasma” se reconstituiu, sob os mesmos fundamentos que o conduziram à quebra de 2008, e é hoje maior do que então. “A dívida global combinada de bancos, negócios domésticos, empresas e Estados elevou-se em 57 trilhões de dólares desde a crise e atinge cerca de três vezes o PIB global” [14]. Em 2018, 26 pessoas controlavam a mesma riqueza que 3,8 bilhões de pessoas.
Foi nesse cenário que a Covid-19 se insinuou, a partir de Wuhan, na China, e se difundiu velozmente, até se consolidar como pandemia reconhecida pela OMS, em 11 de março 2020. A história da pandemia poderia ser intitulada “crônica de uma crise anunciada”. Com efeito, a Covid-19 não representa um fato ou evento isolado ou fortuito, senão um problema que emerge de condições ensejadas por ações e omissões dos governos. Correm pelas redes sociais discursos de Bill Gates e Barack Obama, prevendo a irrupção de uma pandemia, que poderiam ser incluídos como verbetes nas Centúrias de Nostradamus. A Covid-19 era previsível e veio se somar a várias zoonoses precedentes, como o SARS-CoV (2002), a gripe aviária por H5N1 (2005), a gripe A por H1N1 (2009), o MERS-CoV (2012) e o ebola (2014).
De acordo com algumas entidades sanitárias internacionais [15], todas essas doenças decorrem do atual modelo de produção e exploração, que contamina a água, o ar e o solo com agrotóxicos, microplásticos, metais pesados e gases tóxicos, impõe o desmatamento para a ampliação da fronteira agrícola, explora a criação de animais em condições deploráveis, constituindo um meio de cultivo ideal para a gênese de mutações virais, como ficou demostrado com a gripe aviária, a gripe suína e a SARS. A instalação e globalização dos modos de produção extrativistas geraram alterações nos processos metabólicos do planeta e a deterioração progressiva da saúde das comunidades, com redução da capacidade e da resposta imunológica humana em face de diferentes agressões.
Como resultado da imprevidência e da priorização dos interesses neoliberais, a maioria dos países não estava minimamente preparada para enfrentar a pandemia. Após resistências iniciais, foram, paulatinamente, fechando suas fronteiras e decretando o isolamento social. Aqueles que retardaram tais providências para atender a interesses econômicos amargam, hoje, recordes de contaminação e de mortalidade.
Os especialistas dão como certa uma crise econômica mundial, não apenas por conta da recessão decorrente da pandemia, mas como consequência da falta de coordenação de políticas globais, que hoje é menor do que na crise financeira de 2008-2009. A falta de respostas conjuntas aos efeitos da Covid-19 evidencia a adoção de medidas protetivas pelos diversos países, o que poderá determinar a inviabilização de um ritmo de crescimento rápido, sustentável e inclusivo no período que se seguirá [16].
Pandemias são economicamente destrutivas em si mesmas. A pandemia de Gripe Espanhola (1918-1920) provocou uma redução média de 18% na produção industrial e determinou um volume de falências de empresas e famílias nunca visto, padrão que “é consistente com a ideia de que as pandemias deprimem a atividade econômica por meio de reduções tanto na oferta como na distribuição de demanda. E, importante, as quedas na produção são persistentes: as áreas mais afetadas permaneceram deprimidas em relação às menos expostas até 1923” [17].
De acordo com levantamento realizado pela Associação Nacional de Economia Empresarial divulgado em 10 de abril de 2020 [18], os Estados Unidos já estão em recessão, contração que se manterá até o final do primeiro semestre. O Produto Interno Bruto teria declinado 2,4%, em taxa anualizada, no primeiro trimestre de 2020, em virtude das restrições impostas às atividades econômicas. Entre meados de março e meados de abril, mais de 16 milhões de americanos entraram com pedido de seguro-desemprego (mais de 10% da força de trabalho do país), de acordo com o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos. Projeta-se para o final do primeiro semestre taxa de desemprego de 12%.
Na União Europeia, a pandemia realçou as diferenças regionais e o esgarçamento da relação entre os países do bloco. O fechamento unilateral de fronteiras, a proibição pela França e pela Alemanha de exportação de equipamentos médicos para outros países da Europa (e o auxílio prestado por países de fora do bloco) representam bem o protecionismo adotado por alguns de seus integrantes. Durante videoconferência entre ministros da área econômica, o ministro holandês das Finanças, Wopke Hoekstra, em face de pedido de ajuda financeira de nove países, propôs que a UE investigasse as razões pelas quais aqueles países não dispunham de recursos financeiros para combater a pandemia, sem precisar de auxílio de outros [19].
A pandemia também escancarou a dependência dos países ocidentais em relação à China. Isso se evidenciou na busca por insumos médicos, de máscaras a respiradores. Mas, na verdade, a dependência é muito mais acentuada e é efeito direto do neoliberalismo. Ao orientar a migração dos Estados Unidos e da União Europeia (e de outros países ocidentais, como o Brasil) para a China da produção de insumos para a indústria (não apenas de equipamentos de saúde, senão para a eletrônica, a farmacêutica, de automóveis e tantas outras), em nome da vantagem comparativa de mercados, uma vez que os chineses conseguiam produzir tais itens muito mais barato, o neoliberalismo terminou provocando a desindustrialização desses países e a transferência de empregos [20].
Eis o estado da arte.
Nesse cenário, como poderia se concretizar o vaticínio do Financial Times, transcrito no primeiro parágrafo deste texto? Onde estão os “verdadeiros líderes”? Trump e Johnson? Alguém os imagina reunidos com Xi, Putin e Merkel para redesenhar a economia e a geopolítica no pós-pandemia? Não parece provável.
Seguramente, haverá uma reorganização econômica e geopolítica, que já se anunciava há muito tempo e que, talvez, venha a ser agilizada pela pandemia. Também é certo que a China terá um papel central nesse rearranjo.
Celso Amorim, comparando os efeitos geopolíticos da pandemia de Covid-19 aos da Segunda Guerra Mundial, afirmou que a China demonstra maior capacidade de gestão da crise do que os Estados Unidos [21]:
“No final da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética saiu com forte soft power, porque teve um papel fundamental em derrotar o nazismo, mas os Estados Unidos também saíram com um forte soft power. Agora eu acho que é diferente porque a China, até o momento pelo menos, está demonstrando maior capacidade para enfrentar a crise e está também demonstrando a capacidade de cooperar internacionalmente em um momento crítico, coisa que os Estados Unidos não estão demonstrando. Então acho que tudo isso vai implicar mudanças importantes na organização do mundo”.
Pepe Escobar põe em relevo a importância do soft power chinês e exemplifica [22]:
"Pequim mandou para a Itália um avião da Air China com 2.300 grandes caixas de máscaras cirúrgicas. Nas caixas lia-se: ‘Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim’. A China também enviou um grande pacote humanitário ao Irã, a bordo de oito aviões da Mahan Air – companhia aérea que está sob sanções ilegais e unilaterais do governo Trump. (...) Agora comparem tudo isso, e o governo Trump, que oferece US$1 bilhão para subornar cientistas alemães que trabalham na empresa de biotecnologia Curevac, com sede na Turíngia, em uma vacina experimental contra o Covid-19, contando com ‘reservar’ a vacina para ser usada “apenas nos Estados Unidos”.
Além de promover autênticos ataques piratas a cargas de máscaras e respiradores destinadas a outros países, diga-se.
Escobar considera que “a China reposicionou-se. Pela primeira vez desde o início das reformas de Deng Xiaoping em 1978, Pequim considera abertamente os EUA como ameaça” e, por isso, “está modelando passo a passo, com todo o cuidado, a narrativa segundo a qual, desde os primeiros casos de doentes infectados pelo coronavírus, a liderança já sabia que estava sob ataque de guerra híbrida”, razão pela qual “a ‘guerra do povo’ disparou, com toda a potência do estado. Metodicamente. Em base de ‘tudo que for necessário’. Agora estamos entrando em nova etapa, que será usada por Pequim para recalibrar substancialmente a interação com o Ocidente, e sob padrões muito diferentes no que tenham a ver com EUA e União Europeia” [23].
Nessa toada, os Estados Unidos aparentam sentir a aproximação dos seus maiores temores [24]. Em primeiro lugar, o ressurgimento, já agora, de um sistema multilateral que, nos âmbitos tecnológico, econômico e militar, começa a equilibrar as forças geopolíticas mundiais. Depois, a superação da economia norte-americana pela chinesa nos próximos anos, com antecedência de uma ou duas décadas do que era esperado. Por fim, a eliminação da hegemonia mundial do dólar, substituída pelo yuan como moeda de transação de amplo espectro.
Em entrevista à Newsweek, Jimmy Carter expôs uma das razões da fragilização comparativa dos Estados Unidos, dirigindo-se diretamente a Donald Trump:
"Desde 1979, você sabe quantas vezes a China entrou em guerra com alguém? Nenhuma vez, enquanto nós estamos constantemente em guerra. [Os Estados Unidos são] a nação mais guerreira da história do mundo, pois quer impor às outras nações a adoção dos valores americanos. (...) Nós desperdiçamos U$ 3 trilhões em despesas militares. A China não desperdiçou nem um centavo em guerra, e é por isso que nos ultrapassa em quase todas as áreas” [25].
O diagnóstico é pertinente. Mas não é só por isso.
O neoliberalismo é uma experiência fracassada. No final de 2019, antes da Covid-19, os principais executivos das duzentas maiores corporações americanas, reunidos no Business Roundtable, concordaram em que as premissas neoliberais estão erradas, causaram absurda concentração de renda que põe em risco o próprio capitalismo, e, assim, devem ser revistas [26]. Nos últimos quarenta anos, a concentração de renda triplicou, sem que isso trouxesse qualquer benefício para o conjunto da sociedade. O crescimento norte-americano é baixíssimo e é evidente a regressão social, a despeito de baixas taxas oficiais de desemprego.
Na livre economia de mercado, sem qualquer interferência do Estado, apenas os mais ricos são favorecidos. O mercado não tem o condão de se autorregular e a combinação de salários baixos e endividamento familiar não pode gerar crescimento, que só é possível com distribuição de renda. O objetivo central de assegurar lucros aos acionistas das grandes empresas impede a distribuição de renda e enseja graves crises sociais de potencial explosivo.
Em 2014, a OCDE divulgou suas projeções para a economia mundial até 2060. Em resumo, o melhor cenário: se os países centrais conseguirem absorver 130 milhões de imigrantes em busca de trabalho (necessariamente mais flexível), o crescimento mundial vai se reduzir a 2.7%. A desigualdade global crescerá a 40%. Caso contrário, será fatal a estagnação do Ocidente, um ritmo cada vez mais lento de crescimento nos mercados emergentes e a provável falência de muitos mercados [27].
Após a crise de 2008, em apenas seis anos, a China dobrou suas reservas internacionais, passando a 4 trilhões de dólares, em 2014, enquanto os Estados Unidos acumularam uma dívida de 6 trilhões de dólares com o resto do mundo, chegando a 300% do PIB. Segundo Paul Mason, “tudo o que vem ocorrendo desde 2008, por meio do armazenamento de reservas internacionais, deve ser visto como os países superavitários lançando mão de políticas de proteção contra um colapso norte-americano”. E acrescenta: “Se os Estados Unidos não puderem continuar financiando suas dívidas, em algum momento o dólar vai ruir” [28]. O que dispararia o processo seria um ou mais países usarem protecionismo, manipulação cambial ou calote da dívida. “Ou que uma crise de desglobalização originada em conflito diplomático e militar inunde a economia mundial e produza os mesmos resultados [29].
O Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, em entrevista concedida em fevereiro de 2020 [30], afirmou que ''Em todas as dimensões, o neoliberalismo foi um fracasso incontestável'', que gerou uma tripla crise de capitalismo, do clima e de valores, fundado na crença em mercados irrestritos, seguida desde o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos.
A comparação entre editoriais do The Economist, de 1991, e do Financial Times, de 2020, dá a exata noção da compreensão hoje predominante sobre o tema:
Do editorial do The Economist [31]:
“Não há alternativa ao livre mercado como forma de organizar a vida econômica. A expansão da economia de livre mercado deverá levar gradualmente à democracia multipartidária, pois as pessoas que têm liberdade de escolha econômica tendem a insistir na posse também da liberdade de escolha política”.
Do editorial do Financial Times [32]:
"A crise de hoje está revelando o quanto várias sociedades ricas estão aquém desse ideal. Assim como a luta para conter a pandemia expôs o despreparo dos sistemas de saúde, a fragilidade das economias de muitos países foi exposta na medida em que os governos lutam para evitar as falências em massa e lidar com o desemprego em massa. Apesar dos apelos inspiradores à mobilização nacional, não estamos realmente juntos nisso. (...) Os países que permitiram o surgimento de um mercado de trabalho informal e precário estão achando particularmente difícil canalizar ajuda financeira para trabalhadores com empregos tão inseguros. Enquanto isso, um amplo afrouxamento monetário pelos bancos centrais ajudará os ricos em ativos. Por trás de tudo, os serviços públicos subfinanciados estão se desgastando com o peso da aplicação de políticas de crise.(....)
Reformas radicais - invertendo a direção política predominante das últimas quatro décadas - precisarão ser colocadas sobre a mesa. Os governos terão que aceitar um papel mais ativo na economia. Eles devem ver os serviços públicos como investimentos, e não como passivos, e procurar maneiras de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na agenda; os privilégios dos idosos e ricos em questão. Políticas até recentemente consideradas inviáveis, como renda básica e impostos sobre a riqueza, terão que estar entre as propostas."
Ao que parece, excluídos o presidente brasileiro e seus ministros, que praticam as premissas da Escola de Chicago nos dias correntes, mesmo antes da pandemia havia razoável consenso quanto à inviabilidade do neoliberalismo no atual momento do capitalismo. A ordem neoliberal foi rompida e outra precisa ser desenhada. A pandemia de Covid-19 pode ter oferecido régua e compasso.
As reflexões sobre o mundo pós-neoliberalismo vêm apontando algumas possibilidades. Em artigo publicado no El Desconcierto [33], Roberto Pizarro comemora o retorno glorioso de Keynes e indica o keynesianismo como único caminho a percorrer:
"No curto prazo, a injeção maciça de liquidez na economia, com renda para trabalhadores assalariados e informais, além de empréstimos baratos para pequenos empreendedores, é a única receita possível. Você não pode mais acreditar no funcionamento automático e infalível dos mercados. A perplexidade das empresas privadas diante da crise colocou o Estado como o agente fundamental para restaurar o sistema econômico.
A médio prazo, a lição do coronavírus é inevitável. Direitos sociais universais em saúde, educação, moradia e pensões, concedidos pelo Estado. E, na esfera produtiva, transforme a matriz produtiva de atividades primárias em indústrias e outros bens e serviços que incorporam inteligência e tecnologia nos processos de transformação."
Ainda que o keynesianismo se apresente como um bálsamo para a crueldade neoliberal, à opinião de Pizarro pode ser contraposta a observação de Mézáros [34], no sentido de que o keynesianismo é por sua própria natureza conjuntural, porque opera no âmbito dos parâmetros estruturais do capital. Por isso, segundo ele, mesmo no apogeu, o keynesianismo apenas representou a fase “go” da lógica “stop-go” do capital. Daí porque à longa duração da expansão keynesiana (os 30 anos gloriosos) se seguiu a fase de correção e contra-ação, na forma “dura e dolorosa” do neoliberalismo.
Em outra vertente, a cidade de Amsterdã anunciou que adotará o “modelo donut" de economia, que tem por premissa a interrupção da lógica do crescimento a qualquer custo, dando lugar à de atendimento das necessidades humanas e de respeito aos limites ambientais. O modelo mencionado foi proposto pela economista britânica Kate Raworth no livro Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economoist.
De acordo com esse modelo [35], o anel interno do donut estabelece o mínimo necessário para levar uma vida boa, derivada dos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e acordada pelos líderes mundiais de todos os matizes políticos. Qualquer pessoa que não atinja esses padrões mínimos estaria vivendo no buraco da massa. O anel externo representa o teto ecológico traçado pelos cientistas e estabelece os limites que a espécie humana não deve ultrapassar para evitar danos ao clima, solos, oceanos, camada de ozônio, água doce e biodiversidade abundante. Entre os dois anéis está a massa, ou seja, o atendimento das necessidades das pessoas e do meio ambiente.
Também é comum que se aponte o modelo chinês como opção ao neoliberalismo. Anjuli Tostes, no artigo Pandemia, populismo e nova ordem social, que integra esta obra, adverte que “embora a China politicamente funcione em torno do Partido Comunista Chinês - PCC, no seio do qual a vida estatal acontece, no âmbito econômico vigora atualmente a economia socialista de mercado, introduzida a partir das reformas levadas a cabo por Deng Xiaoping em 1978”, e que seria “um estágio preliminar do desenvolvimento socialista chinês”. Ocorre que, segundo a autora, a “‘economia de socialista de mercado com características chinesas’ não se diferencia hoje o suficiente para servir como um contraponto ao capitalismo ocidental, como foi o modelo soviético”. Para ela, não há “nada realmente substantivo em termos de ruptura com o sistema capitalista, ao menos não por agora, enquanto o processo socialista chinês não está consolidado”.
É de ver que a China, apesar de todo soft power acumulado, não tem condições, neste momento, de absorver as dívidas dos demais países, fixar regras explícitas e instituir um novo sistema monetário global, como fizeram os Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial[36]. Portanto, provavelmente, não haverá algo como Bretton Woods.
O filósofo esloveno Slavoj Žižek vislumbra a emergência de uma espécie de novo pensamento comunista, distante do comunismo histórico, como produto da crise do Covid-19. Diferentemente do que sustentam alguns analistas, Žižek não acredita que surjam novos totalitarismos, pois crê no fortalecimento dos laços de comunidade, desde que sejamos capazes de reconstruir a confiança nas instituições, o que impõe aos cidadãos maior controle sobre os governantes [37].
Provavelmente, ao falar em novo comunismo, Žižek deseje diferenciar a experiência que, segundo ele, está por vir, do fracasso das sociedades pós-capitalistas históricas, causado pela tentativa de equilibrar a determinação “estruturadora do sistema herdado pela imposição sobre seus constituintes fortemente antagônicos da estrutura de comando extremamente centralizada de um Estado político autoritário” [38], ao invés de remediar tal antagonismo por meio da “reestruturação interna e da instituição de um controle democrático substantivo” [39].
Porque, na linha sustentada por Mézáros, à luz da experiência histórica, somente o socialismo “será capaz de conter e derrotar as forças que hoje empurram a humanidade para o abismo da autodestruição” [40]. Com efeito, “a cada nova fase de protelação forçada, as contradições do sistema do capital só se podem agravar, trazendo consigo um perigo ainda maior para a própria sobrevivência da humanidade” [41].
Ainda não se sabe o quanto o 1% mais rico e seus apoiadores estarão dispostos a defender os mesmos preceitos centrais do neoliberalismo (financeirização, precarização do trabalho, militarismo). Mas é certo que a superação do horror por ele patrocinado passará pela “progressiva reaquisição pelos indivíduos dos poderes alienados de tomada de decisões, na transição para uma sociedade socialista” [42].
A pandemia de Covid-19, como epílogo do processo de rompimento da ordem neoliberal, pode representar um ponto de inflexão e, talvez, estimular a construção de sociedades fundadas em um juízo crítico sobre sua razão e sentido, na definição de quais devem ser as necessidades a satisfazer e os objetivos a perseguir. Que seja, ao menos, momento de reflexão sobre cada um e todos, fazendo emergir propósitos de cooperação, solidariedade e respeito. Ou será o início da reconstituição dos elementos da ordem estabelecida, de seu fortalecimento, no sentido do individualismo, do isolamento, do egoísmo, do preconceito e do autoritarismo. O futuro nos dirá.
[1] Este artigo foi publicado, originalmente, no livro Quarentena: reflexões sobe a pandemia e depois, que pode ser acessado, gratuitamente, em editorapraxis.com.br/quarentena. [2] Virus lays bare the frailty of the social contract. Disponível em https://www.ft.com/content/7eff769a-74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca. [3] HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Imperio. Record: Rio de Janeiro, 2001, pp. 285-310. [4] Hardt et Negri, op. cit., m.p. [5] MÉZÁROS, Istivan. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 42. [6] MÉZÁROS, Istivan. O século XXI: socialismo ou barbárie. São Paulo: Boitempo, 2003, p. 22. [7] MÉZÁROS, Istivan. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 83. [8] CHOMSKY, Noam. As pessoas ou o lucro. Bertrand Brasil: São Paulo, 2002, p 26. [9] Ibidem, p. 22. [10] Ibidem, p. 26. [11] MASON, Paul. Pós-capitalismo: um guia para o nosso futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 13. [12] Disponível em https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/213656/Riqueza-dos-1-mais-ricos-supera-a-de-99-no-mundo.htm. [13] MASON, op. cit., p. 30. [14] Ibidem, p. 32. [15] V. g. Instituto de Salud Socioambiental da Argentina. [16] Opinião de Mohamed El-Erian, conselheiro econômico-chefe da seguradora Allianz e presidente da Queens College. Disponível em https://jornalggn.com.br/noticia/risco-de-repetir-2008-e-real-diz-mohamed-el-erian/. [17] Cf. Pandemics depress the economy, public health interventions do not: evidence from the 1918 flu. Disponível em https://brasil.elpais.com/economia/2020-03-30/licoes-de-1918-as-cidades-que-se-anteciparam-no-distanciamento-social-cresceram-mais-apos-a-pandemia.html. [18] Disponível em https://oglobo.globo.com/economia/os-eua-ja-estao-em-recessao-por-causa-do-coronavirus-dizem-economistas-24366295 [19] Informação disponível em https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/coronavirus-lideres-europeus-dizem-que-virus-pode-acabar-com-ue/. [20] Cf. ARAÚJO, André Motta. Dependência da China foi gerada pelo neoliberalismo. Disponível em https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/dependencia-da-china-foi-gerada-pelo-neoliberalismo-por-andre-motta-araujo/. [21] Declaração disponível em https://www.brasil247.com/mundo/celso-amorim-china-tera-papel-decisivo-no-mundo-pos-coronavirus?amp#.XpCCtCSuO-s.whatsapp. [22] Cf. ESCOBAR, Pepe. China locked in hybrid war with US. Disponível em https://asiatimes.com/2020/03/china-locked-in-hybrid-war-with-us/. [23] Ibidem. [24] Opinião compartilhada por Arévalo Méndez, em mensagem eletrônica. [25] Disponível em https://www.google.com/amp/s/www.newsweek.com/donald-trump-jimmy-carter-china-war-infrastructure-economy-trade-war-church-1396086%3famp=1. [26] Cf. ARAÚJO, André Motta. A elite americana prevê o fim do neoliberalismo. Disponível em https://jornalggn.com.br/artigos/a-elite-americana-preve-o-fim-do-neoliberalismo-por-andre-motta-araujo/. [27] MASON, op. cit., pp. 64-66. [28] Ibidem, p. 56. [29] Ibidem, p. 66. [30] Disponível em https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/permalink/63333. [31] MÉZÁROS, op. cit., pp. 25-26. [32] Virus lays bare the frailty of the social contract. Disponível em https://www.ft.com/content/7eff769a-74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca. [33] Cf. Vuelve Keynes; el coronavirus derrotó al neoliberalismo. Disponível em https://www.eldesconcierto.cl/2020/04/09/vuelve-keynes-el-coronavirus-derroto-al-neoliberalismo/. [34] Op. cit., p. 96. [35] Disponível em https://www.theguardian.com/world/2020/apr/08/amsterdam-doughnut-model-mend-post-coronavirus-economy. [36] MASON, op. cit., p 64. [37] Entrevista disponível em https://www.diariodocentrodomundo.com.br/vejo-um-novo-comunismo-distante-do-comunismo-historico-brotar-do-virus-diz-slavoj-zizek/. [38] MÉZAROS, op. cit., 103. [39] Ibidem, m.p. [40] Ibidem, p. 88. [41] Ibidem, p. 15. [42] Ibidem, p. 104.
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